29 de outubro de 2016

Combinado?

Faz assim: primeiro na minha rede, depois na tua. 
Na minha eu pego teus cabelos e te puxo pra mim, dou muito beijo, depois peço desculpas, porque sei que no fundo tu não quer me beijar. Pernas para cima! Bora ver um filme? 
Na tua rede tu confessa que quer me beijar desde sempre e se enrosca em mim. Eu te chamo de malvado e mordo tua boca e a gente se embola ali. Até dormir. 
Depois a gente junta as duas redes e quando vê já tá no chão, quase embaixo do sofá lambendo os restos de brigadeiro de panela que nunca estiveram numa colher.

12 de outubro de 2016

Hoje, não.

Quem sabe um dia tu me pergunte (se eu penso em ti, às vezes) e eu responda que penso, lembro, relembro, observo, aprendo, reaprendo e às vezes até me repreendo. Mas hoje, não. Hoje, eu só queria te ver tão de perto e poder salivar por cada L ou T que fazem tua língua desfilar ante meus olhos. Agora ou ontem ou semana passada, eu só queria queimar na tua boca. E ao que parece vai ser sempre assim. Corra, pessoa, corra! Se repreenda, aprenda e fuja! Essa sou eu todos os dias. Corra, corra! Pense, lembre, relembre e se espalhe em milhares de pedaços quebrados. Essa sou eu também. Vem pra mim, vem. Foge, não. Sim. Sou eu ainda. A eternidade é a repetição. Determinação não é comigo.

16 de maio de 2014

Continho para olhar o sol nascer

No canto mais extremo dos teus olhinhos puxados consigo me ver por dentro das tuas retinas. Posso tocar nos teus cílios, cheirar teu cabelo, morder tua orelha, escorregar em teu pescoço.  
Mas, eu só quero mergulhar na tua boca, ficar inundada com teu beijo.

(Entre lábios, línguas e dentes) – É pra sempre?

(Entre cabelos, olhos e furacões*) – É até passar a vontade.



*Entre cabelos, olhos e furacões, delicadamente (ou descaradamente) roubado da música do Zé Ramalho. E do nome do CD do Filipe Catto.

22 de fevereiro de 2014

Do mar ou de amar, não sei...

Quando passo naquele bairro onde tu acampou por três meses, a maresia me trás teu cheiro, as vezes me mareja os olhos. Em outras molha minha calcinha. E prender a respiração não resolve porque tuas unhas nunca saíram das minhas costas. E ouço o tilintar dos teus brincos nos meus dentes, sinto tuas coxas nas minhas orelhas, e ouço todas aquelas músicas que eram tuas e minhas. E tuas e da Regina. Tuas e da Ana Paula. E da Bárbara, e da Cris, e nem quero prosseguir na minha lista. Sabe que tu além de ser irritantemente linda é extremamente nociva? Gostar de ti me largou lá no alto da montanha russa, sabe como é? Quando a gente não tem opção a não ser descer naquele trem inseguro que começa com frio na barriga e termina em grito de desespero. Porque contigo, lindeza, nunca termina em alívio. 
Essa noite eu tive um sonho estranho. Tinha um moço por quem eu era apaixonada. Tão bom, tinha uma saudade! Era tão real que quando acordei fiquei procurando em mim por aquele rosto, aquele nome e nada. Depois de meio litro de café entendi. Quis tanto te esquecer, sabe? Tirar de mim o visgo do teu cheiro, do teu gosto, esquecer teu olhar, quis tanto que deu certo, consegui. Mas o imbecil do meu subconsciente não. Ele fica ali tentando jogar tua voz nos meus ouvidos. Me faz procurar pela tua foto na parede e fico olhando, fingindo que nem sei o que procuro, mas ele fica ali, na competente tentativa de me enlouquecer. Mas eu falava do sonho... Não. Esquece o sonho... 
Ontem, na terapia, a doutora me disse que o que faz minha depressão piorar é meu estágio avançado de consciência...  Viu que legal? Tua pseudo-namoradinha além de melhor sexo oral da terra ainda tem um avançado estágio de consciência. Não sei se é mais desperdício de língua ou de neurônio... Nem sei o que vim fazer aqui. Deve ter sido o sonho que me fez lembrar de como é bom ter alguém pra contar alguma coisa. Putz, meu supra estágio de consciência acaba de me lembrar que nunca pude contar nada a não ser se rolava ou não tudo que tu querias comer em mim...    Deixa pra lá. Vou tentar não sonhar mais.

24 de outubro de 2013

Uma história de amor (ou não...)

Maxine, toda colorida, durante muito tempo só queria voltar pro céu... Voar muito alto e se deixar cair, dar rasantes, ver as cores que não eram daquelas paredes, comer o que não era alpiste, encontrar um par que não lhe fosse arranjado, escolher uma casa que não fossem aquelas grades. Ao lado estavam também Pandora, Tibetano, Amaranta, Borboleta, e uns outros 20 pássaros de nomes estranhos para pássaros. Seu Rodolfo os amava. Suas cores, seus cantos, seus comportamentos tão peculiares para tão pouco tamanho.

Eis que seu Rodolfo começa a ter pesadelos. Estava preso, amarrado, sem conseguir gritar, às vezes cego, mas sempre preso...  Disseram que poderia ser pelos pássaros, sabe? Mas poxa, gosto tanto deles... Mas aí, seu Rodolfo, é aquela coisa que aquele escritor que não lembro o nome falou, pra gente amar e deixar livre, porque se a gente for amado, a pessoa volta, ou nem vai embora, entende? Solte os bichinhos Rodolfo, se eles te amam eles vão voltar...
Assim o fez. Um a um, um a cada, dia pra se acostumar. E a cada dia perdia um deles, menos Maxine que continuou lá. Seu Rodolfo a mostrava para as visitas, todo orgulhoso, veja, não é ingrata como os outros! Esta sim, me ama... Olha como canta feliz!

Numa bela noite, Maxine decidiu que chegara a hora. Saiu de sua gaiola em silêncio absoluto. Foi até a cama de seu Rodolfo e o olhou com muita atenção. Pousou na gola daquele pijama horroroso e quando ele virou de barriga para cima, Maxine voou até o canto do quarto e veio com toda sua força em direção a jugular de seu Rodolfo, viu seu sangue jorrar, o viu olhando para ela e cantou o mais bonito que pode até que ele parasse de respirar.

16 de outubro de 2013

Porque sim!!

Se não é seguro, por que vou? Porque se não for, perco no mínimo uma grande foda e no máximo uma tórrida paixão. Vou porque é quente, porque me dá arrepios. Porque só de pensar em não ir me dá calafrios. Vou porque quando me imagino indo, me vejo correndo de encontro a um precipício, com o caminho mais delícia do mundo, e se vou cair ou me jogar quando chegar lá, só saberei quando chegar lá. Vou porque minha pele me implora que vá. Cada poro, cada pelo, cada canto, cada sonho. Todo dia, toda hora, tudo nisto. Minha saliva dobrou de volume desde que existe a possibilidade da ida. Minhas mãos batucam meu corpo, quase como que numa masturbação inconsciente. E, sim, consciente também. Vou porque meus olhos te querem perto, de perto, mais perto. Porque sonho com o peso dos teus tapas, das tuas mãos, com meus cabelos presos nelas, com as tuas pernas enroscadas nas minhas, com a tua voz no meu ouvido, até com dormir de conchinha e todos os clichês que uma paixão tem direito. Porque quero te olhar lá debaixo. Te ter, te dar, te servir, aceitar, engolir todos os teus instintos mais baixos e invadir todos os teus sonhos de amor. Porque se eu for, ganho no mínimo grandes fodas e no máximo a vivência breve de uma tórrida paixão.


Talvez eu vá porque nunca fui destas que ouvem a voz da razão...

9 de agosto de 2013

A Novidade era o Máximo do Paradoxo

. Esse texto foi inspirado na música  A Novidade , do Gilberto Gil. 


Padre Eduardo praticamente nasceu padre. Nunca quis ser outra coisa, até o dia em que morreu. Seu Darcy nem sabe como virou dono de puteiro, foi um negócio que tava na família há quatro gerações, ele era o único filho homem. Nanda Suely virou puta aos poucos, uma concessão aqui, uma troca de favores ali e resolveu levar a coisa a sério. Foi esse improvável triângulo não amoroso que movimentou aquelas semanas no bairro São Gilberto. Padre Eduardo era conhecido na região por uma igreja que tinha santos com cara de gente, com cara de povo, sabe? Sem cara de coitados ou superiores, cara de gente comum, que um dia recebeu um chamado divino, só isso. E lá estava Padre Eduardo, a caminho de uma reunião de jovens desencaminhados quando viu a mulher que seria o rosto do povo para sua Nossa Senhora. Já viu tudo, né? Comentou com o amigo, ele não vê a tal mulher.
-  aquela ali na praia, ali na areia
-  Nanda Suely? Nanda Suely é o melhor boquete desta cidade, tá maluco?
Sim, até padres tem amigos tarados, e, não, ele não estava maluco! O desafio era ainda maior e a vitória seria ainda melhor...
Bom, vou poupar vocês dos pormenores...
Dias posando para Padre Eduardo, conversas sobre vocação, pecado, céu, inferno, Nanda Suely começa a admirar a igreja, Padre Eduardo a entender que é só uma profissão.
Mas seu Darcy, coitado... Precisou contratar cinco novas garotas para sobreviver ao concorrido mercado da sacanagem, mas sua casa nunca mais foi a mesma, nunca mais se formaram filas, casa cheia, nada. Os clientes começaram a se queixar de Nanda Suely. Sua profissional mais requisitada não era desejada por ninguém. Diziam que se sentiam sujos. Sujos, pecadores, indignos de voltarem à suas esposas, seus lares, a beijarem seus filhos. Não se pode dar o pau pra uma mulher com cara de santa chupar.
Padre Eduardo, na inauguração de sua Nossa Senhora fora vaiado, apedrejado, expulso da cidade e da congregação. Saiu até no jornal. 

15 de setembro de 2012

Volta?

Ocorreu que perdi a senha do e-mail do bol... Fiz uma que representasse nós dois e ironicamente (ou não...) acabei esquecendo, não teve maneira de lembrá-la.
Estive aí por esses dias, e mesmo sabendo que tu estaria a quilômetros de distância, saia na rua meio arrepiada, rezando pra deus e o diabo: para não ver-te, mas poder dar uma espiadinha.
 
Sabe que precisei fazer uma sessão de exorcismo*?
Depois de uns dias ouvindo música no ônibus, e todo dia a Novo e Velho Aeon me vinha com sessões musicais saudosistas, aquela coisa no peito. Cada vez que ouvia Giz tinha o desespero de te ligar.

Aliás, acabei de ligar, com o coração aos pulos, a boca seca, as mãos trêmulas, rezando (pra deus e o diabo) pra que não atendesses.
E aconteceu: foi outra pessoa...   
Desliguei quase feliz, meio melancólica.

 Mas, dizia eu, que perdi a senha do bol...
Vez ou outra eu penso  se tu me escreveste novamente alguma vez, além daquele recado horroroso de aniversário...
Tive vontade de dizer-te coisas feias, como quando tiveres coragem de acabar com esta porcaria de casamento, essas coisas que não se deve dizer.

Mas, eu vim para dizer-te/reclamar-te/informar-te do meu coração partido, da saudade e do imenso amor que tenho por ti.

Volta a escrever pra mim de novo, volta?






* http://dizdizendo.blogspot.com.br/2011/05/o-enterro-dos-fantasmas.html

 

 

11 de abril de 2012

Final da novelinha*

*Em primeira pessoa...

Acho que foi assim que terminou tudo pra mim: a gente tava conversando e Ela ligou. E vocês conversaram e tu, no final, disse pra Ela “eu te amo” e me olhou.
Tu lembra do dia em que eu fiz A produção de um strip-tease: de saltos altíssimos, passando pela cinta-liga, tudo da cor que tu gosta, com aquela música da Adele.
E tu me deu uma olhada tão, tão, nem sei. Tão devastadora, tão devoradora que o espartilho descosturou inteiro, meu sutiã se abriu e quando eu vi tu já estava lá, me mostrando tudo aquilo dentro de mim...

Foi assim que tu me olhou depois do “eu te amo” pra Ela.
E eu escolhi naquele momento que não deveria te escolher.

Nunca. E foi ali que pra mim morreu.

Na verdade foi ali que decidi que tudo deveria morrer, mas sempre que tu chega tão apressado, tão desesperado me pedindo um beijo eu tenho certeza absoluta de que a melhor coisa a fazer é pular no teu colo e te encher de beijo.

E eu juro que tento controlar todos os meus sentidos sempre que ouço tua voz.
E juro ainda que não quero mais.

E a quem interessar possa, ou caso você queira saber, cada poro meu espera – ansiosamente que abras aquela porta...

6 de dezembro de 2011

Tenha fé e será atendido!


Ana Beatriz, que era louquíssima de dar nó por Gerson, o queria só e somente só para si. Que ele fosse seu e que seus fossem seu amor e seu destino. Que ela fosse a única dona de seu coração, a mãe dos seus filhos, sua companheira para sempre, todo o sempre. Que nunca fosse trocada por ninguém.
Com a herança do pai seqüestrou um neurocirurgião cubano e dois engenheiros russos e os trancou num calabouço até que eles desenvolvessem o microchip que lhe possibilitasse realizar seu sonho.
Onze meses e vinte e três dias depois, lá pelas nove da manhã, Ana Beatriz recebeu a ligação com a resposta tão, tão esperada, sonhada, idealizada e agora, realizada: sim! O microchip estava pronto.
Gerson foi encapuzado em uma esquina, colocado em uma van, adormecido com éter, levado ao calabouço e teve o microchip implantado na pele do dedão do pé (esquerdo, a única exigência dos sequestrados). 
Para as mulheres com quem Gerson sai casualmente, mesmo que o casualmente seja por semanas, tudo fica no casualmente. Quando evolui para meses, como é o caso da Carlinha e da Deisinha, sete e dez meses respectivamente, ou como no caso da Lu, sua secretária, e da Pati, sua prima, dois e cinco anos, não necessariamente nesta ordem, ele é claro e taxativo: Ana  Beatriz é seu amor, a única mulher da sua vida, a mãe de seus filhos, sua companheira e que não a trocará por ninguém. Nunca.