9 de junho de 2025

Quem me dera ao menos uma vez

 



Hoje eu acordei com uma vontade danada. Não de mandar flores ao delegado ou de bater na porta do vizinho e desejar bom dia, até pq estava fazendo 9º quando eu acordei, às seis da manhã.

Mas eu dizia que hoje acordei com uma vontade danada. De trocar essa vênus flamejante e passional em escorpião por uma vênus em sagitário novinha em folha. Quem sabe mais leve, mais solta, pronta para o rolê e dessas que querem mais é variar. 


Queria também, nesta vontade danada, pegar essa lua capricorniana e analítica e rancorosa e tão cautelosa e tão séria e tão contida e tão, tão observadora, por uma lua em áries. Sabe? Sair metendo o louco, dando o foda-se, tretando em cada esquina e sair jogando o topete.


Quem sabe trocar meu sol em virgem e meu ascendente em aquário, as duas únicas figuras humanas do zodíaco, justamente no meu mapa. As duas. Trocar as duas por um novo par, mais animalesco, mesmo que dócil, que mesmo com instintos apurados, dormem longas tardes, se espreguiçam, suspiram e tem aquele olhinho sempre doce, sabe? Daquele par de bichos que se refestelam ao sol, que não armazenam traumas, que se distraem e deixam o instinto primitivo de luta ou fuga pra bem depois.


Esse indeciso e lento marte em libra poderia ser substituído por um certeiro marte em touro, sabe? Aí, meu eu racional, talvez soubesse a diferença entre a teimosia e a persistência.


Talvez no fundo, bem no fundo, eu só queria outra coisa, sabe? Quem me dera nem querer mexer nas casas. Quem me dera ao menos uma vez nunca ter conhecido o grande laço, um passo pra uma armadilha.


18 de novembro de 2024

Como já dizia Djavan*


Escrevo-te estas mal traçadas linhas, para dizer que, após devorar-te até a alma neste início de tarde, toda e qualquer escrita de meus dedos aqui no computador molham as teclas e escorrem por minhas pernas. Mas digo também que sigo firme no propósito da escrita, com as pernas cruzadas e tendo à frente teus olhos, naquela hora que deves bem lembrar qual. 

Na verdade, em todas as horas que me lembro de tuas carnes nas minhas. Me atrapalham a escrita, mas sigo em frente.

Mas eu dizia que, escrevo-te estas mal traçadas linhas para dizer-te que, após te devorar nesse início de tarde, conto cada parágrafo de tempo pra colocar um ponto e vírgula nessa fome toda: te ver de perto, te ter bem perto.


*Como já dizia Djavan é, na verdade, uma música do Cazuza de que eu gosto muito. Mas aqui é sobre Cigano, sobre viajar entre pernas e delícias e (te) querer mais.

27 de maio de 2024

Um coração partido incomoda muita gente


Não basta sentir o coração partido em milhares - sim, milhares, este texto requer um tanto de hipérbole - de pedaços e ter o último pensamento ao dormir e o primeiro ao acordar como uma coisa só. E aquela saudade sem fim. Não…

Sua mente, amante do bom e velho rock and roll e MPB, vai te fazer verter lágrimas ridículas em ritmos bem menos louváveis, te transformando num mero mortal.  O resto da rotina é aliança guardada, porta-retrato emborcado, lembranças e suspiros infinitos e do nada vem um cheiro de café e não se tem mais paz com tanta memória. 

Mas abramos aqui um parêntese sobre aquele dia no mercado, a música foi aceitável, afinal, um clássico é sempre um clássico. Vou ali no Nordestão de Petrópolis, onde a cada três itens, lá se vão cem reais e quando percebo, pessoas cantarolam ao meu lado “quando digo que deixei de te amar é porque te amo” enquanto escolhem um azeite. Já na sessão de naturebas, “Mas a verdade é que eu sou louco por você…” 

Percebo que toca Evidências nos alto-falantes e a cada corredor novas pessoas e novas frases da música brotam num quase murmúrio “mas tenho medo de pensar em te perder”. Enquanto olho estupefata o valor do mamão papaya, o refrão começa e do nada, os cantantes parecem zumbis introspectivos em uníssono, como se meu drama amoroso fosse uma espécie de flash mob discretíssimo. “Eu te quero mais que tudo, eu preciso dos teus beijos, eu te entrego a minha vida” e meus olhos marejados com algo que não era um cisco, observaram incrédulos e “diz que é verdade, que tem saudade” e se recusaram a pagar mais de dez reais por um mamão.

Mas não bastam as humilhações públicas na sessão de hortifrutis. Além de todas as sensações individuais de quase morte, quase desespero e de lágrimas que vertem, além de um misto de ódio e inveja de casais que sorriem juntos no meio das tórridas ruas de Natal. A gente não fica contente em se torturar sozinho. 

A gente conta pra amiga tudo de novo, tudo o que ela já ouviu da outra vez e conta novamente e a pobre, toda trabalhada na paciência, ouve novamente. Para aquelas amigas que a gente não vê há tanto tempo, é uma ótima oportunidade pra repassar os diálogos, mostrar prints e rodar áudios. Os desconhecidos também não estão livres, pois dramas amorosos que terminam em um belo bolo de 14 andares, são ótimos assuntos para cafeterias.

Para todos, sem exceção, há o desprazer de ouvir em quase toda e em quase qualquer situação o nome da, como diria aquela música de Ataulfo Alves, criatura que me fez tão triste assim. Quase em toda e qualquer porque o senso do ridículo te dá um mínimo de senso de ridículo, porque a lembrança é permanente.

Para os porteiros do edifício, em especial os que acompanham as câmeras dos elevadores, que nunca na história desta edificação assistiram tanto uma pessoa chorando do térreo ao 14º andar, minhas sinceras desculpas

Aos vizinhos, pelas músicas diárias e repetidas e sempre as mesmas, foi mal. Nem o pobre o pet se salva porque é a única testemunha das noites em claro em casa.

Quando a gente percebe, dá aquela vontade quase que irresistível de ser um meme de instagram e dizer para o motorista do Uber: “sabe o que é seu Josivaldo? A gente ia morar juntas e ela me largou.”

Um coração partido incomoda muita gente. 


9 de junho de 2022

Desencantos na Floresta Encantada

 Quando Chapeuzinho Vermelho passava pela floresta para levar presentes à Vovó, o Lobo a espreitava há muito tempo. Na verdade o que o Lobo queria, era descobrir os segredos da Vovozinha, que doces, que perfumes, que músicas ela gostava. Toda aquela experiência de mulher madura deixava o Lobo maluquinho.

Um dia, o Lobo foi abordado por um policial que questionava, acusava, batia.
O Lobo jurava amor eterno à Vovozinha, que jamais quisera tocar na menina.
Chapeuzinho soluçava, gritava, chorava copiosamente agarrada às pernas do policial.
O Lobo foi acusado, preso, condenado.
Cinco anos por pedofilia.
A Vovozinha morreu um ano depois. Infarto.
O Lobo em dois anos. Complicações decorrentes do diabetes, com a vida insuportavelmente amarga. Chapeuzinho cometeu suicídio em janeiro. Puro remorso.

7 de julho de 2021

Procura-se um amor que goste de vacinas

 As linhas brancas desenhadas no chão, milimetricamente espaçadas de nada serviram para afastar as pessoas. A fila para a vacina daqueles com 40 a 44 anos era formada por gente pouco afeita ao distanciamento social.

Um deles, um hipster com a barba ultrapassando em vários centímetros a máscara no queixo, sai para fumar um cigarro no canteiro.

Cadeiras de praia, bundas escoradas em hidrantes, cotovelos em carros, trocas de pernas para descanso e eu, a pessoa que vos escreve, sentada no chão. Pensei se a fila seria um bom lugar para marcar de encontrar alguém no pós-vacina, de 40 a 44 anos, que goste de vacinas.

Lembrei de lapsos hormonais causados pela carência afetiva desta pandemia. Como o dia em que fiquei absolutamente encantada por um ciclista de touca, óculos escuros e, claro, máscara, e quando me dei conta de como olhava pra ele nem deu tempo de me perguntar o que exatamente eu estava olhando, já que nem tinha muito para o que olhar naquele fim de tarde gélido. Tive medo de ele voltar e puxar assunto comigo e entrei em uma loja de roupas que jamais usaria. Comprei um par de meias que chamo de as meias secretas de um amor à primeira vista se eu tivesse visto alguma coisa.

Outro dia, no mercado, tive um crush imediato que parecia que ia virar uma paixão avassaladora, seguida de um amor verdadeiro: era um carrinho de supermercado com uns sucos orgânicos e verduras igualmente desprovidas de agrotóxicos, cervejas artesanais, uns iogurtes, um capeletti e um pedaço de parmesão. Aquele parmesão ia cair lentamente, em lascas sobre o molho branco delicioso que aprendi a fazer no Via Madalena, banhando o capeletti com o sabor do amor.

Eu ainda imaginei – certeiramente, eu ouvi um amém? – que o dono daquele carrinho era um moço de cabelos bagunçados, barba farta e olhos negros e, quem sabe? Uma camiseta de uma banda de rock. Pra piorar ele era tudo isso e ainda muito carinhoso, como pude perceber quando uma mulher chegou com uma barra daquele chocolate de café que eu adoro.

E lá se vai o carrinho de supermercado perfeito.

Bom, quanto ao amor que goste de vacina na fila da vacina para aqueles de 40 a 44 anos, além do hipster, até onde minha vista alcança, dois ou três homens com cara de poucos amigos e muitas, muitas mulheres contando coisas sobre a pandemia. De entes queridos intubados, de amigos mortos.

Em meio a felicidade da sorte de não ter vivido isso, de não perder ninguém para esta terrível doença, até pensei que quem precisa de um amor que goste de vacina, né?

Apois preciso! Jogo é jogo, treino é treino e quem não vacina não beija.

 

2 de agosto de 2019

Vida, pisa devagar...


Enquanto tu toma um café aí na porta, parado, eu mexo no celular e vejo nós dois em todas as fotos dos lugares legais que fotógrafos que viajam o mundo e passam horas esperando pelo pôr do sol perfeito, após tratar as fotos, as publicam para que pessoas como eu, vejam e imaginem nós dois. Talvez não pessoas como eu. E talvez não depois de ouvir um desagrado. Talvez não enquanto meu cérebro tenta me alertar. Mas talvez sim, enquanto meu coração põe as mãos nos ouvidos e grita lá lá lá lá muito alto para não ouvir uma palavra do cérebro que tenta traçar um quadro realista ao argumentar que eu deveria desistir. Mas eu falava das fotos. E te vejo lá comigo e sinto teu sorriso na minha boca em toda parte. Acho que o que eu ia dizer no começo é que da forma como nós dois conduzimos nossas vidas hoje, a gente não vai pra lugar nenhum. Não geograficamente. Não juntos. Um amor permeado de teimosias está longe de ser o ideal. Mas quem porra liga para o ideal? Acho que tá errado. Um amor que vem de um abraço parece, sim, ser o ideal. É perfeito. Acho que quando peguei a caneta era sobre um homem de pé em uma porta, amargurado, tomando um café sem açúcar, já que combina mais com a amargura de uma manhã chuvosa de inverno que, claro, poderia combinar com amor. Mas...  Aí a mulher veria fotos de lugares lindos e pensaria nos dois. Mas com raiva por estar chateada. Aí ele pergunta se ela vai mesmo ficar com aquela cara e ela tenta explicar que estava pensando em um texto. De um cara de pé na porta, tomando café e de uma mulher chateada mexendo no celular. Mas ele não gosta do fato de a mulher estar chateada e aquilo se perde do mais importante: nós dois juntos, na praia, esperando a noite cair, olhando nos olhos sem precisar desviar porque no fundo a gente não queria se magoar. Ou talvez, a parte de como a gente vem conduzindo a vida da gente seja importante. Não sei. Parece que termina com quinze minutos de carro até a casa dela, em silêncio, com a chuva batendo no para-brisas. Com o coração gritando lá lá lá lá mais baixo.

27 de maio de 2019

Do inferno

Alguém que seja boa companhia, um bom papo, bom amigo para conversas cafés sem açúcar. 
Que tenha tantas afinidades quanto diferenças e se espante tanto quanto eu com mapas astrológicos simétricos.
Uma pessoa que se encaixe no meu corpo acordada, dormindo, só de mãos dadas ou com nenhuma roupa.

Principalmente.
Principalmente, alguém que beije como nenhuma outra criatura da terra. 

Mantenha-se longe.

Agora, se você for do tipo atencioso e que não desperta insônia, que cumpre promessas simples, que não me queime juízo ou a alma, que não desperte nenhum sonho e, principalmente. 

Principalmente, que me beije como um mero mortal.

Me chama pra um trelelê, cinema, conversa. Tomamos algo juntos. Suco, sorvete, banho... 

Sonhar acordada? Não, obrigada.

16/01/19
O tempo estava infernalmente quente.
Ele, infernalmente gélido.

26 de junho de 2018

Falta de sol


Acordei com aquela saudade de abrir todas as janelas para o sol, botar uma música alta, cantar e cozinhar contigo, como quando experimentava tudo de cinco em cinco minutos até ficar sem fome para o almoço. A falta de sol, os 286 km que nos separam e a preguiça de ser só me levaram à casa do Jim, onde fizemos almoço vegetariano. Sorvete de sobremesa. Com chocolate branco picado. Sem minha carne de acompanhamento. Anoiteci na rua Caicó número 60 onde bebi vinho, tive orgasmos e mais sorvete. Já pela manhã, aqui na casa que era nossa, nua, bebo um café sem açúcar e vou dormir morrendo de saudades (com a pele ótima).

10 de outubro de 2017

Me conta?*

Não sei se mais lindo ou mais triste aquele soneto que não virou poesia. Assim como também não consigo saber se quando te vejo, te ouço ou te lembro me molha mais a boca ou os lábios. Nem se esse medo de me apaixonar e ir pra um caminho sem volta é vontade.
Também nem sei se teu beijo fica entre as melhores ou piores coisas que outra pessoa nunca vai fazer comigo. Parece que nunca saberei sobre sonetos, beijos ou paixões. 
Só vou saber sobre lábios e boca quando me contares o resultado.
Seguirei fingindo não saber a espera de comprovações constantes.

*É de lábios e boca que estamos falando...

29 de outubro de 2016

Combinado?

Faz assim: primeiro na minha rede, depois na tua. 
Na minha eu pego teus cabelos e te puxo pra mim, dou muito beijo, depois peço desculpas, porque sei que no fundo tu não quer me beijar. Pernas para cima! Bora ver um filme? 
Na tua rede tu confessa que quer me beijar desde sempre e se enrosca em mim. Eu te chamo de malvada e mordo tua boca e a gente se embola ali. Até dormir. 
Depois a gente junta as duas redes e quando vê já tá no chão, quase embaixo do sofá lambendo os restos de brigadeiro de panela que nunca estiveram numa colher.

12 de outubro de 2016

Hoje, não.

Quem sabe um dia tu me pergunte (se eu penso em ti, às vezes) e eu responda que penso, lembro, relembro, observo, aprendo, reaprendo e às vezes até me repreendo. Mas hoje, não. 
Hoje, eu só queria te ver tão de perto e poder salivar por cada L ou T que fazem tua língua desfilar ante meus olhos. Agora ou ontem ou semana passada, eu só queria queimar na tua boca. 
E ao que parece vai ser sempre assim. Corra, pessoa, corra! Se repreenda, aprenda e fuja! Essa sou eu todos os dias. 
Corra, corra! Pense, lembre, relembre e se espalhe em milhares de pedaços quebrados. Essa sou eu também. Vem pra mim, vem. Foge, não. Sim. Sou eu ainda. 
A eternidade é a repetição. Determinação não é comigo.

16 de maio de 2014

Continho para olhar o sol nascer

No canto mais extremo dos teus olhinhos puxados consigo me ver por dentro das tuas retinas. Posso tocar nos teus cílios, cheirar teu cabelo, morder tua orelha, escorregar em teu pescoço.  
Mas, eu só quero mergulhar na tua boca, ficar inundada com teu beijo.

(Entre lábios, línguas e dentes) – É pra sempre?

(Entre cabelos, olhos e furacões*) – É até passar a vontade.



*Entre cabelos, olhos e furacões, delicadamente (ou descaradamente) roubado da música do Zé Ramalho. E do nome do CD do Filipe Catto.

22 de fevereiro de 2014

Do mar ou de amar, não sei...

Quando passo naquele bairro onde tu acampou por três meses, a maresia me trás teu cheiro, as vezes me mareja os olhos. Em outras molha minha calcinha. E prender a respiração não resolve porque tuas unhas nunca saíram das minhas costas. E ouço o tilintar dos teus brincos nos meus dentes, sinto tuas coxas nas minhas orelhas, e ouço todas aquelas músicas que eram tuas e minhas. E tuas e da Regina. Tuas e da Ana Paula. E da Bárbara, e da Cris, e nem quero prosseguir na minha lista. Sabe que tu além de ser irritantemente linda é extremamente nociva? Gostar de ti me largou lá no alto da montanha russa, sabe como é? Quando a gente não tem opção a não ser descer naquele trem inseguro que começa com frio na barriga e termina em grito de desespero. Porque contigo, lindeza, nunca termina em alívio. 
Essa noite eu tive um sonho estranho. Tinha uma moça por quem eu era apaixonada. Tão bom, tinha uma saudade! Era tão real que quando acordei fiquei procurando em mim por aquele rosto, aquele nome e nada. Depois de meio litro de café entendi. Quis tanto te esquecer, sabe? Tirar de mim o visgo do teu cheiro, do teu gosto, esquecer teu olhar, quis tanto que deu certo, consegui. Mas o imbecil do meu subconsciente não. Ele fica ali tentando jogar tua voz nos meus ouvidos. Me faz procurar pela tua foto na parede e fico olhando, fingindo que nem sei o que procuro, mas ele fica ali, na competente tentativa de me enlouquecer. Mas eu falava do sonho... Não. Esquece o sonho... 
Ontem, na terapia, a doutora me disse que o que faz minha depressão piorar é meu estágio avançado de consciência...  Viu que legal? Tua pseudo-namoradinha além de melhor sexo oral da terra ainda tem um avançado estágio de consciência. Não sei se é mais desperdício de língua ou de neurônio... Nem sei o que vim fazer aqui. Deve ter sido o sonho que me fez lembrar de como é bom ter alguém pra contar alguma coisa. Putz, meu supra estágio de consciência acaba de me lembrar que nunca pude contar nada a não ser se rolava ou não tudo que tu querias comer em mim...    Deixa pra lá. Vou tentar não sonhar mais.

24 de outubro de 2013

Uma história de amor (ou não...)

Maxine, toda colorida, durante muito tempo só queria voltar pro céu... Voar muito alto e se deixar cair, dar rasantes, ver as cores que não eram daquelas paredes, comer o que não era alpiste, encontrar um par que não lhe fosse arranjado, escolher uma casa que não fossem aquelas grades. Ao lado estavam também Pandora, Tibetano, Amaranta, Borboleta, e uns outros 20 pássaros de nomes estranhos para pássaros. Seu Rodolfo os amava. Suas cores, seus cantos, seus comportamentos tão peculiares para tão pouco tamanho.

Eis que seu Rodolfo começa a ter pesadelos. Estava preso, amarrado, sem conseguir gritar, às vezes cego, mas sempre preso...  Disseram que poderia ser pelos pássaros, sabe? Mas poxa, gosto tanto deles... Mas aí, seu Rodolfo, é aquela coisa que aquele escritor que não lembro o nome falou, pra gente amar e deixar livre, porque se a gente for amado, a pessoa volta, ou nem vai embora, entende? Solte os bichinhos Rodolfo, se eles te amam eles vão voltar...
Assim o fez. Um a um, um a cada, dia pra se acostumar. E a cada dia perdia um deles, menos Maxine que continuou lá. Seu Rodolfo a mostrava para as visitas, todo orgulhoso, veja, não é ingrata como os outros! Esta sim, me ama... Olha como canta feliz!

Numa bela noite, Maxine decidiu que chegara a hora. Saiu de sua gaiola em silêncio absoluto. Foi até a cama de seu Rodolfo e o olhou com muita atenção. Pousou na gola daquele pijama horroroso e quando ele virou de barriga para cima, Maxine voou até o canto do quarto e veio com toda sua força em direção a jugular de seu Rodolfo, viu seu sangue jorrar, o viu olhando para ela e cantou o mais bonito que pode até que ele parasse de respirar.

16 de outubro de 2013

Porque sim!!

Se não é seguro, por que vou? Porque se não for, perco no mínimo uma grande foda e no máximo uma tórrida paixão. Vou porque é quente, porque me dá arrepios. Porque só de pensar em não ir me dá calafrios. Vou porque quando me imagino indo, me vejo correndo de encontro a um precipício, com o caminho mais delícia do mundo, e se vou cair ou me jogar quando chegar lá, só saberei quando chegar lá. Vou porque minha pele me implora que vá. Cada poro, cada pelo, cada canto, cada sonho. Todo dia, toda hora, tudo nisto. Minha saliva dobrou de volume desde que existe a possibilidade da ida. Minhas mãos batucam meu corpo, quase como que numa masturbação inconsciente. E, sim, consciente também. Vou porque meus olhos te querem perto, de perto, mais perto. Porque sonho com o peso dos teus tapas, das tuas mãos, com meus cabelos presos nelas, com as tuas pernas enroscadas nas minhas, com a tua voz no meu ouvido, até com dormir de conchinha e todos os clichês que uma paixão tem direito. Porque quero te olhar lá debaixo. Te ter, te dar, te servir, aceitar, engolir todos os teus instintos mais baixos e invadir todos os teus sonhos de amor. Porque se eu for, ganho no mínimo grandes fodas e no máximo a vivência breve de uma tórrida paixão.


Talvez eu vá porque nunca fui destas que ouvem a voz da razão...

9 de agosto de 2013

A Novidade era o Máximo do Paradoxo

. Esse texto foi inspirado na música  A Novidade , do Gilberto Gil. 


Padre Eduardo praticamente nasceu padre. Nunca quis ser outra coisa, até o dia em que morreu. Seu Darcy nem sabe como virou dono de puteiro, foi um negócio que tava na família há quatro gerações, ele era o único filho homem. Nanda Suely virou puta aos poucos, uma concessão aqui, uma troca de favores ali e resolveu levar a coisa a sério. Foi esse improvável triângulo não amoroso que movimentou aquelas semanas no bairro São Gilberto. Padre Eduardo era conhecido na região por uma igreja que tinha santos com cara de gente, com cara de povo, sabe? Sem cara de coitados ou superiores, cara de gente comum, que um dia recebeu um chamado divino, só isso. E lá estava Padre Eduardo, a caminho de uma reunião de jovens desencaminhados quando viu a mulher que seria o rosto do povo para sua Nossa Senhora. Já viu tudo, né? Comentou com o amigo, ele não vê a tal mulher.
-  aquela ali na praia, ali na areia
-  Nanda Suely? Nanda Suely é o melhor boquete desta cidade, tá maluco?
Sim, até padres tem amigos tarados, e, não, ele não estava maluco! O desafio era ainda maior e a vitória seria ainda melhor...
Bom, vou poupar vocês dos pormenores...
Dias posando para Padre Eduardo, conversas sobre vocação, pecado, céu, inferno, Nanda Suely começa a admirar a igreja, Padre Eduardo a entender que é só uma profissão.
Mas seu Darcy, coitado... Precisou contratar cinco novas garotas para sobreviver ao concorrido mercado da sacanagem, mas sua casa nunca mais foi a mesma, nunca mais se formaram filas, casa cheia, nada. Os clientes começaram a se queixar de Nanda Suely. Sua profissional mais requisitada não era desejada por ninguém. Diziam que se sentiam sujos. Sujos, pecadores, indignos de voltarem à suas esposas, seus lares, a beijarem seus filhos. Não se pode dar o pau pra uma mulher com cara de santa chupar.
Padre Eduardo, na inauguração de sua Nossa Senhora fora vaiado, apedrejado, expulso da cidade e da congregação. Saiu até no jornal. 

15 de setembro de 2012

Volta?

Ocorreu que perdi a senha do e-mail do bol... Fiz uma que representasse nós duas e ironicamente (ou não...) acabei esquecendo, não teve maneira de lembrá-la.
Estive aí por esses dias, e mesmo sabendo que tu estaria a quilômetros de distância, saia na rua meio arrepiada, rezando pra deus e o diabo: para não ver-te, mas poder dar uma espiadinha.
 
Sabe que precisei fazer uma sessão de exorcismo*?
Depois de uns dias ouvindo música no ônibus, e todo dia a Novo e Velho Aeon me vinha com sessões musicais saudosistas, aquela coisa no peito. Cada vez que ouvia Giz tinha o desespero de te ligar.

Aliás, acabei de ligar, com o coração aos pulos, a boca seca, as mãos trêmulas, rezando (pra deus e o diabo) pra que não atendesses.
E aconteceu: foi outra pessoa...   
Desliguei quase feliz, meio melancólica.

 Mas, dizia eu, que perdi a senha do bol...
Vez ou outra eu penso  se tu me escreveste novamente alguma vez, além daquele recado horroroso de aniversário...
Tive vontade de dizer-te coisas feias, como quando tiveres coragem de acabar com esta porcaria de casamento, essas coisas que não se deve dizer.

Mas, eu vim para dizer-te/reclamar-te/informar-te do meu coração partido, da saudade e do imenso amor que tenho por ti.

Volta a escrever pra mim de novo, volta?






* http://dizdizendo.blogspot.com.br/2011/05/o-enterro-dos-fantasmas.html

 

 

11 de abril de 2012

Final da novelinha*

*Em primeira pessoa...

Acho que foi assim que terminou tudo pra mim: a gente tava conversando e Ela ligou. E vocês conversaram e tu, no final, disse pra Ela “eu te amo” e me olhou.
Tu lembra do dia em que eu fiz A produção de um strip-tease: de saltos altíssimos, passando pela cinta-liga, tudo da cor que tu gosta, com aquela música da Adele.
E tu me deu uma olhada tão, tão, nem sei. Tão devastadora, tão devoradora que o espartilho descosturou inteiro, meu sutiã se abriu e quando eu vi tu já estava lá, me mostrando tudo aquilo dentro de mim...

Foi assim que tu me olhou depois do “eu te amo” pra Ela.
E eu escolhi naquele momento que não deveria te escolher.

Nunca. E foi ali que pra mim morreu.

Na verdade foi ali que decidi que tudo deveria morrer, mas sempre que tu chega tão apressado, tão desesperado me pedindo um beijo eu tenho certeza absoluta de que a melhor coisa a fazer é pular no teu colo e te encher de beijo.

E eu juro que tento controlar todos os meus sentidos sempre que ouço tua voz.
E juro ainda que não quero mais.

E a quem interessar possa, ou caso você queira saber, cada poro meu espera – ansiosamente que abras aquela porta...

6 de dezembro de 2011

Tenha fé e será atendido!


Ana Beatriz, que era louquíssima de dar nó por Gerson, o queria só e somente só para si. Que ele fosse seu e que seus fossem seu amor e seu destino. Que ela fosse a única dona de seu coração, a mãe dos seus filhos, sua companheira para sempre, todo o sempre. Que nunca fosse trocada por ninguém.
Com a herança do pai seqüestrou um neurocirurgião cubano e dois engenheiros russos e os trancou num calabouço até que eles desenvolvessem o microchip que lhe possibilitasse realizar seu sonho.
Onze meses e vinte e três dias depois, lá pelas nove da manhã, Ana Beatriz recebeu a ligação com a resposta tão, tão esperada, sonhada, idealizada e agora, realizada: sim! O microchip estava pronto.
Gerson foi encapuzado em uma esquina, colocado em uma van, adormecido com éter, levado ao calabouço e teve o microchip implantado na pele do dedão do pé (esquerdo, a única exigência dos sequestrados). 
Para as mulheres com quem Gerson sai casualmente, mesmo que o casualmente seja por semanas, tudo fica no casualmente. Quando evolui para meses, como é o caso da Carlinha e da Deisinha, sete e dez meses respectivamente, ou como no caso da Lu, sua secretária, e da Pati, sua prima, dois e cinco anos, não necessariamente nesta ordem, ele é claro e taxativo: Ana  Beatriz é seu amor, a única mulher da sua vida, a mãe de seus filhos, sua companheira e que não a trocará por ninguém. Nunca.

19 de outubro de 2011

Domingo de chuva, 9 de setembro...*

Abri teu envelope com tanta ansiedade que quase rasguei tua carta. Linda! A li de forma brusca, a deglutindo como uma cobra a um sapo. Ou quem sabe um sapo a uma mosca? Saber que tua vida segue bem me deixa feliz e ao mesmo tempo angustiada. Talvez insegura por não fazer parte para o primordial de um dia perfeito. A Virgínia tá linda. Tem mais um botão lilás nascendo, e os ninhos continuam caindo, agora menos pelo início da primavera. Ainda sinto teu gosto no suco de laranja com leite. Contra tua vontade cortei os cabelos, daquele jeito que eu queria, curto atras, na nuca e comprido nos ombros. Talvez seja minha forma de vingança por teres escolhido viver longe de mim, nessa loucura toda que te faz tão bem, eu sei, claro.
Ainda fumo um antes do banho e ouço teu CD predileto, mais por costume que por necessidade de lembranças tuas já que você está incrustado até no maldito tapete que ainda sofro tentando mantê-lo limpo, claro também que não me desfaço dele por pura teimosia, assim, longe eu admito. E na geladeira, sempre que a porta não fecha quando tem muito gelo, eu lembro de ti. Não quero dizer que só a desordem me lembra você, não é isso. A ordem chata com que eu mantenho meus livros (1º letra do ultimo sobrenome do autor) é lembrança sua. Meus traumas dissipados e a nova capacidade de viver o mundo de forma mais corajosa também. E manda dizer pra essa tal Maria Lúcia que ela não ouse atender o telefone quando eu tiver coragem pra ouvir tua voz novamente, e se eu souber que você a chama de baby você tá frito!! Eu te mato!! E manda uma carta pra tua mãe, ela tá preocupada. No meu aniversário ela me trouxe um Vinícius de Moraes com uma dedicatória que é a cara dela "pra você continuar amando".
É isso.
Ao brincos são lindos, mas claro, não esperei que vc lembrasse, eu tenho alergia a certos materiais, tudo bem. A foto eu tirei um dia antes de cortar os cabelos. Claro que eu tava chapada, vê-se pelos olhos, né? Foi na praia do amor.
Beijos.

PS.: Na próxima eu te conto quem foi que tirou a foto e porque eu estou com esta expressão de "foi bom" estampada no rosto. Aguardo ansiosamente por notícias suas.

Beijos.
Baby.





Meu em 2001.




Primeiro texto publicado, de quando este blog era tímido/covarde e ainda não tinha espaço para comentários ...


*No título original, fica Domingo de chuva, 9 de setembro de 2001.